quarta-feira, 10 de agosto de 2016

REVOLTO MAR CONTRA AS PEDRAS


revoltado mar
de cabeça nas pedras
espuma e naufrágios
imundam o azul
subtrai peixes
mirram jangadas,
esfaimadas e banguelas,
numa marcha revoltada,
cólera e sal;
o mar quebrado nas pedras
é meu coração inundado de ódio
afundado no vermelho raivoso
afundando pescadores e velas
numa batalha naval
contra piratas e impérios
que fazem cemitérios
dos barcos e corais
que meu coração conservava
quando mar, vela e marulho.
Revolto mar
contra as pedras
se quebra todo
feito eu
revoltado com os outros
tão pedras quanto eu.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

URUBUS NOS TRILHOS

MORTO NO TRILHO
URUBU ESMAGADO
ATRAI OUTRO URUBU
MORTO NO TRILHO
URUBU AMASSADO
ATRAI OUTRO URUBU
MORTO NO TRILHO
DE BICO ABERTO
ATRAI OUTRO URUBU
MORTO NO TRILHO
ESQUARTEJADO URUBU
ATRAÍDO PELO CÃO
MORTO NO TRILHO
ATAZANADO CÃO
PELA SARNA EM VIDA
PELAS MOSCAS PÓSTUMAS
QUE COMEM SUA MORTE
ENQUANTO OUTRO VULTO SE APROXIMA.

CÃO...
TREM...
URUBU...
TREM...
REFEIÇÃO.

domingo, 3 de julho de 2016

AO KORCEL QUE VAZOU DO CARROSSEL

                                À GUIGO MUNHOZ


REVOLUCIONOU
AO RELINCHAR
E DERRUBAR O MENINO
- EMPINANDO INDÔMITO -
E AINDA É TEMIDO
POIS É O VAZIO QUE GIRA
QUE CIRANDA
NO CARROSSEL SEM INFÂNCIA.
REVOLUCIONOU
AO EMPINAR
E FEITO CORCEL
SALTOU DO CARROSSEL
PRA GANHAR O CÉU
E DO CÉU QUEDAR,
POIS CIRANDOU COM ASTROS
E ATRIZES
E, SEM DEIXAR RAÍZES,
GALOPOU ENTRE OS RASTROS
DOS BANDOS EM MIGRAÇÃO
QUE FOGEM DO FRIO
COMO ELE DO CORAÇÃO.
REVOLUCIONOU
AO RELINCHAR,
AO EMPINAR,
AO DEIXAR BANGUELO
O CARROSSEL
DE SORRISO AMARELO
DE MENINO MONTADO
NO CAVALO CASTRADO
ENQUANTO O SELVAGEM KORCEL
BUSCA OUTROS SELVAGENS
QUE COM ELE RODEM
NUM VERTIGINOSO KARROSSEL.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Estocado 

O outono gela a água da pia
embaça o espelho do banheiro 
acelera o rito do barbear 
e amarela calçada e rua.

Onde está meu destino?
Passou por meu intestino?
De jaqueta, me escondo na sombra 
pro sol não me dá motivo.

Espero um amigo antigo 
pois estou ficando antigo 
e logo serei obsoleto 
e tratado como tinto estocado.

Mas os jovens não são enólogos 
então sirvo-lhes versos em flor
para que fiquem de fogo 
e se lembrem no inverno.

Serei licor quando inverno,
apaixonante quando velho,
espumante pós guerra
e verão contra o terno.

terça-feira, 26 de abril de 2016

TIRED POEM

Ela adormece 
enquanto leio alguns poemas
considerados bons para mim
que leio-os efusivo,
administrando a oratória
e gaguejando pouco,
entoando e sussurrando
tornando o poema marítimo,
embora meus poemas sejam duros,
não saibam dançar 
não tenham ginga
nem sejam providos de música,
mas são dopantes o suficiente
para fazê-la adormecer
enquanto leio poemas nunca ouvidos.

                                        COM  MARIA ONÉLIA

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O CLOWN




Vaga pelo vagão
Entoando pregão
Em forma de refrão
Rimando poesia
Com esmola e hipocrisia
O poeta de cara pintada,
Emaranhado numa piada,
Recita seu poema
Escondendo-se do sistema,
Fazendo estratagema
Entre lírico e circense,
farça e romance
Com trejeitos nonsense,
O palhaço trovador
Recita sobre amor,
Solidão e pó
E, terminado seu rondó,
Espera aplausos ou dó
Emendando um xote
E grave deboche
Ao pedir sem rimar,
Uma moeda pra almoçar
E, diante do silêncio em contra-ataque
- Pior que vaias e tomates,
O palhaço esbraveja
- Indignado nem verseja,
Pois é justificável
Poesia tão deplorável
Já que barriga vazia
não carrega poesia.
Assim, o poeta fracassa
Ao manter tristonha careta
Que seria melhor em pirueta
Que em versos sem graça.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

NA COVA

ELES MATAM EM NOME DE DEUS
ROUBAM EM NOME DE DEUS
ESCRAVIZAM EM NOME DE DEUS
ELES ESTUPRAM EM NOME DE DEUS.
ELES COSPEM NOS PRATOS DA FOME
MIJAM NOS POÇOS DA SEDE
ELES CHUTAM OS FILHOS DO SUOR,
ALICIAM AS FILHAS DA DOR
E ENTERRAM HOMENS E MULHERES
FEITO GATOS ESCONDENDO FEZES.

ELES BRADAM, LADRAM, URRAM
E GARGALHAM HIENAS,
TODOS CHEIRANDO A IMPORTADOS,
TODOS TRANSPIRANDO SUÍNOS,
EVOCAM LUGARES E ANÔNIMOS
QUE ALI, POR ELES, SÃO REPRESENTADOS.
QUEM SÃO ELES?
TAMBÉM CHEIRAM A IMPORTADOS?
TAMBÉM LEMBRAM PORCOS?
MATAM, TRAEM, ROUBAM POR DEUS?
QUEM ELES REPRESENTAM?

NAQUELA COVA,
LEÕES DESPEDAÇAM A ESPERANÇA
E HIENAS ROEM A CARCAÇA AOS RISOS.
ESPERANÇA TRAÍDA
ESPERANÇA LARANJA
ESPERANÇA CRIANÇA
CRIANÇA CAÍDA
OFERTADA PELAS MÃOS
QUE UM DIA LHE ABRIGARAM.
ESTRAÇALHADA
POR RATOS E HIENAS
APÓS DEVORADA POR LEÕES
QUE, DA CASA DO POVO,
FIZERAM SUA COVA.

domingo, 17 de abril de 2016

ENCARNADO

ENCARNO O VERMELHO
VERMELHO ENCARNADO
VERMELHO MORDIDO
VERMELHO FERIDO
VERMELHO SANGUE
SANGUE NOS TANQUES
VERMELHO PATERNO
VERMELHO MATERNO
VERMELHO SOVIÉTICO
VERMELHO IDEOLÓGICO
VERMELHO POÉTICO
VERMELHO PATOLÓGICO
VERMELHO PLATÔNICO
- QUIÇÁ ANTIÉTICO -
VERMELHO FEBRIL
VERMELHO CORADO,
QUIÇÁ ENVERGONHADO,
PORÉM VERMELHO,
VERMELHO SUADO
VERMELHO FAMINTO
VERMELHO FRUSTRADO
VERMELHO LÁBIO
VERMELHO ARDENTE
VERMELHO
COR QUE FERVE EM MINHAS VEIAS.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

POETA VELHO

O poeta envelhece 
e o peso do corpo vira poesia,
calvície e osteoporose rimam;
perde a conta das perdas,
perdas inerentes ao verso
ao entorse no dorso,
aos olhos infantes 
separados da mãe em plena Sé;
olhos que choram, viram choro e fizeram chorar.


O poeta envelhece
feito o sofá forrado de sulcos,
feito a cama rangente de tanto amor,
feito os livros proscritos na biblioteca
e o Corcel desmanchado no poente ferro velho.
O poeta envelhece
resignado de sonhar 
e lutar por bandeiras:
Seus sonhos foram reduzidos a sebos
e sua bandeira cobre o mendigo no relento.


O poeta envelhece,
mas todo poeta é um velho prematuro,
todo poeta é um príncipe caduco,
todo poeta é um cardíaco maluco... 
Enfermo fujão que faz poesia de qualquer enfermeira.
A velhice não o espanta 
o espelho não o talha,
só lâmina amolada
e poeta sem óculos,
e o barbear ganha diálogos de Shakespeare.


O poeta envelhece,
a poesia continua jovem
e sai do banho nua 
pingando sua insolência no carpete da sala,
valendo mais um cálido poema do velho
sempre menino quando poeta.

domingo, 20 de março de 2016

LIVRO


Como organismo vivo,
venosa celuloide de negro plasma, 
página pele pálida 
onde parasitam tatuagens,
cirurgias, brigas e o tempo.
Livro-me de ti livro 
como água lavando a ferida,
como tosse expulsando 
o sangue tuberculoso,
como lágrima levando 
do organismo
estranho organismo;
maligno ser inoculado no peito 
que afeta também o pulmão:
livro, deténs o meu livramento. 
Guardas nas entranhas meu fruto;
Digeres o pão amassado pelo cão; 
Esterilizas a mordida no coração.
Livro, companheiro de fossas 
E conspirador de revoluções,
guerrilheiro quando a guerra
é contra o mundo 
quando o mundo não é livro,
apenas prateleira.
Livro, lido com ti
E tua sonífera presença;
Livro, lido e relido,
Me livro de ti.
Tua epiderme será devorada 
quando devorado eu for pela terra
e tuas folhas feridas por palavras
serão adubo para damas da noite
- quiçá torne-se trigo, meu livro -
e enquanto houver um homem na terra,
lá estarás em forma de título. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

POÉTICAMENTE POLÍTICO


PROPONHO O POEMA REVOLUCIONÁRIO
REGADO A SANGUE E SUOR PROLETÁRIO;
POEMA QUE FIE O MILAGRE AGRÁRIO
E AO HOMEM JUSTO, O JUSTO SALÁRIO.

NELE NÃO HÁ PALAVRAS AMOLADAS
QUE CORTAM A CARNE, O TRIGO E A MAÇÃ;
TAL POEMA NEM UNIFICA NEM EDIFICA,
MAS, QUIÇÁ, NUM PALANQUE, FERMENTE A MASSA;

BOMBEIE NOS CORAÇÕES COMBALIDOS
O TRIUNFANTE DISCURSO DO GENERAL;
JORRE POR MEGAFONES FOGO E SAL;

ANUNCIE A COLHEITA AOS DESNUTRIDOS
E, PROMETA CHUVAS E RIOS POTÁVEIS
ATRAVÉS DE CÂNTICOS  E VOTOS COMPRÁVEIS
 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O CAMPEÃO


ENTRE A BANCARROTA
E O CRUZADO DA GLÓRIA,
FIGURA O REGIME DO RINGUE

ESQUIVA-SE DA LIGEIRA CANHOTA
E EMENDA UMA SENHORA TORA
DEIXANDO A VIDA GROGUE

VIDA QUE APOSTA NA TUA DERROTA
TE ANUNCIA COMO ESCÓRIA
E PROÍBE QUE TEU CORTE ESTANQUE.

A CADA NOCAUTE, CADA VOLTA,
CADA FRATURA E COÁGULO NA MEMÓRIA,
O CAMPEÃO GANHA ASPECTO DE TANQUE

E LOGO, NENHUM ROUND MAIS O ESGOTA,
NEM DA BOCA CALEJADA VAZA LAMÚRIAS:
A LONA, ANTES LAMA, VIRA PALANQUE.

NOTA QUE, NA AMARGA DERROTA
E NA DOCE VITÓRIA,
PREVALECE O GOSTO DE SANGUE.



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A VELHA E O MAR

RELIGIOSAMENTE POÉTICO


MINHA FOME NÃO É HÓSTIA
NEM SANTA CEIA QUEM APLACA.
MINHA FOME É CARNÍVORA E LAICA,
MINHA SEDE: APLACA O VINHO NA BOCA.

NÃO ACENDO VELAS PARA IMAGENS
NEM DOBRO OS JOELHOS NO LEITO
QUANDO ALGO CARCOME MEU PEITO
OU ALGUÉM SOFRE DE VISAGENS.

NÃO OFERTO ROSAS NEM CARREGO ANDOR,
NEM ME PERSIGNO, TAMPOUCO ME FLAGELO,
POIS DEIXO PROS VERSOS ALEGRIA E DOR.
VERSOS FEITOS À MÃO, SEM MARTELO.

NÃO É MISSAL, NÃO É VERSÍCULO,
MEU POEMA NÃO É HINO NEM CÂNTICO,
NEM É PREGADO EM PRAÇA PÚBLICA,
NEM É BARROCO NEM É ROMÂNTICO.

MEU POEMA É MEU TEMPLO, MEU VERBO,
MEU TESTAMENTO PERSEGUIDO E QUEIMADO;
NÃO É TAUMATURGO, E SIM, MUITO PECADOR,
MAS NELE CREIO POR SER OUTRO CRUCIFICADO.

OFF-SINA



É necessário uma bigorna,
um martelo e a fornalha 
para que o poema, que orna,
também brilhe feito navalha. 

Possa ele ceifar plantações,
exércitos e pomares;
deva ele armar batalhões,
calçar cavalos e extrair molares.

Ardente oficina é o homem 
cujo encéfalico martelo 
junto de bigorna e abdômen 

escrevam o amolado cutelo 
na página de ferro e brasa 
onde a carne, com o corte, se casa.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

MOMO



Obeso
Hipertenso
Diabético
Cardíaco
Patético
no seu trono irreal,
suado e suíno rei
entre súditos de fio-dental,
bobos e uma corte gay,
decreta sem régia carta
que se esqueça tudo
que não seja se esbaldar no abandono
tendo salvo-conduto
até a cinzenta quarta.

Findo seu mandato,
vossa majestade - de quatro -
despede-se do trono
voltando ao peso,
à pressão,
à glicose,
ao coração,
à baixestima
e ao abandono.

domingo, 24 de janeiro de 2016

INSONE SOLIDÃO



Solitário, sou socorrido pelo soneto 
sonolento, leio lentamente o soneto 
silente, o soneto ressoa sonífero 
dormente, releio o soneto letárgico 
solícito, o soneto parece um sineiro 
sonâmbulo, releio o verso decassílabo 
simbólico, o verso conduz o diálogo 
combalido, releio o verso relido 
relido, o verso ressoa a sino.
Só, sonolento e suado, 
releio o soneto metrificado;
silente, solícito e relido, 
o soneto ecoa no vazio da casa vazia 
- fantasma alexandrino que, em demasia,
enche e enche até a boca minha cara 
com essa insone e viciante bebida 
rotulada COMPANHIA, 
quando o silêncio da solidão
repercute nos tacos do chão,
nas dobradiças rangendo aflição,
pesadelo que não me deixa dormir 
mesmo embriagado pela mesma página,
título, verso e métrica 
desse tranquilizante para elefante; 
vernáculo em manada; lira cetácea;
pugilista peso parnaso relido 
por um ermitão ferido na córnea, 
mas que não se dá por vencido.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

REQUINTE DE CRUELDADE



O poodle ataca

A tartaruga de pano

Sem qualquer piedade;

Na verdade,

Sem compaixão, rasga sua vítima com paixão;

Estraçalha seu casco de algodão

Arranca suas entranhas de espuma;

Suja o carpete da sala de estar

Esvaziando a tartaruga

Espalhada pelo carpete

Em forma de barbárie.


O poodle tenta reanimar seu brinquedo

Incentivado pelos risos e palmas

Da sua dona que não cabe em si

Diante do inocente assassino que,

Patético, cobre de lambidas os pés

De quem financiou sua castração.

sábado, 9 de janeiro de 2016

NOME MORTO (MENINA NO TÚMULO)

Lágrima trêmula
Menina no túmulo.
É o cúmulo
A lápide edícula,
Sobre seu moreno ondulado,
Pesar seu nome litografado.
Nome que pesa na voz,
Nos ouvidos e no peito
De quem vê vazio o leito
De quem já não dorme,  jaz.

AOS CABAÇOS EM POESIA

As mulheres,
Principalmente as mulheres
Por quem você se apaixona,
Não querem seus sonetos
De português impecável,
De métrica apurada
E idílicas rimas...
Por favor, criatura,
Aboles os devaneios!

Elas querem palavras chulas,
Querem falar e ver rola,
Querem ouvir e engolir porra,
Tudo em verso branco,
Tudo em nervo livre
Sem métrica qualquer
- pra quê limites?

Sem declamações, meu caro;
Palavrões e insultos sem avareza,
Pois as mulheres,
Principalmente as mulheres
Pelas quais você dedica odes e acordes,
Não querem ser tratadas como musas
E sim, maltratadas como putas.

TERCEIRA URBEVISÃO

Sob o azedo cheiro de urina
Sob a feiura e o relento da esquina
A catadora de papelão
Pede para o café com pão
E recebe o frio, concreto, cimento,
Betume, cobre, papelão e paletó Não.
- Que papelão Praciano!

Sob velhice, pombos e papelão,
Deixo a catadora (vovó?)
E sigo levando na cara a brisa da manhã
Carregada da azeda urina da noite
Enquanto o sol desponta entre edifícios
Apontando pra mão sob os papelões
Segurando um copo vazio com alguns tostões
Enquanto dorme os papelões.