domingo, 24 de janeiro de 2016

INSONE SOLIDÃO



Solitário, sou socorrido pelo soneto 
sonolento, leio lentamente o soneto 
silente, o soneto ressoa sonífero 
dormente, releio o soneto letárgico 
solícito, o soneto parece um sineiro 
sonâmbulo, releio o verso decassílabo 
simbólico, o verso conduz o diálogo 
combalido, releio o verso relido 
relido, o verso ressoa a sino.
Só, sonolento e suado, 
releio o soneto metrificado;
silente, solícito e relido, 
o soneto ecoa no vazio da casa vazia 
- fantasma alexandrino que, em demasia,
enche e enche até a boca minha cara 
com essa insone e viciante bebida 
rotulada COMPANHIA, 
quando o silêncio da solidão
repercute nos tacos do chão,
nas dobradiças rangendo aflição,
pesadelo que não me deixa dormir 
mesmo embriagado pela mesma página,
título, verso e métrica 
desse tranquilizante para elefante; 
vernáculo em manada; lira cetácea;
pugilista peso parnaso relido 
por um ermitão ferido na córnea, 
mas que não se dá por vencido.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

REQUINTE DE CRUELDADE



O poodle ataca

A tartaruga de pano

Sem qualquer piedade;

Na verdade,

Sem compaixão, rasga sua vítima com paixão;

Estraçalha seu casco de algodão

Arranca suas entranhas de espuma;

Suja o carpete da sala de estar

Esvaziando a tartaruga

Espalhada pelo carpete

Em forma de barbárie.


O poodle tenta reanimar seu brinquedo

Incentivado pelos risos e palmas

Da sua dona que não cabe em si

Diante do inocente assassino que,

Patético, cobre de lambidas os pés

De quem financiou sua castração.

sábado, 9 de janeiro de 2016

NOME MORTO (MENINA NO TÚMULO)

Lágrima trêmula
Menina no túmulo.
É o cúmulo
A lápide edícula,
Sobre seu moreno ondulado,
Pesar seu nome litografado.
Nome que pesa na voz,
Nos ouvidos e no peito
De quem vê vazio o leito
De quem já não dorme,  jaz.

AOS CABAÇOS EM POESIA

As mulheres,
Principalmente as mulheres
Por quem você se apaixona,
Não querem seus sonetos
De português impecável,
De métrica apurada
E idílicas rimas...
Por favor, criatura,
Aboles os devaneios!

Elas querem palavras chulas,
Querem falar e ver rola,
Querem ouvir e engolir porra,
Tudo em verso branco,
Tudo em nervo livre
Sem métrica qualquer
- pra quê limites?

Sem declamações, meu caro;
Palavrões e insultos sem avareza,
Pois as mulheres,
Principalmente as mulheres
Pelas quais você dedica odes e acordes,
Não querem ser tratadas como musas
E sim, maltratadas como putas.

TERCEIRA URBEVISÃO

Sob o azedo cheiro de urina
Sob a feiura e o relento da esquina
A catadora de papelão
Pede para o café com pão
E recebe o frio, concreto, cimento,
Betume, cobre, papelão e paletó Não.
- Que papelão Praciano!

Sob velhice, pombos e papelão,
Deixo a catadora (vovó?)
E sigo levando na cara a brisa da manhã
Carregada da azeda urina da noite
Enquanto o sol desponta entre edifícios
Apontando pra mão sob os papelões
Segurando um copo vazio com alguns tostões
Enquanto dorme os papelões.