sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

POÉTICAMENTE POLÍTICO


PROPONHO O POEMA REVOLUCIONÁRIO
REGADO A SANGUE E SUOR PROLETÁRIO;
POEMA QUE FIE O MILAGRE AGRÁRIO
E AO HOMEM JUSTO, O JUSTO SALÁRIO.

NELE NÃO HÁ PALAVRAS AMOLADAS
QUE CORTAM A CARNE, O TRIGO E A MAÇÃ;
TAL POEMA NEM UNIFICA NEM EDIFICA,
MAS, QUIÇÁ, NUM PALANQUE, FERMENTE A MASSA;

BOMBEIE NOS CORAÇÕES COMBALIDOS
O TRIUNFANTE DISCURSO DO GENERAL;
JORRE POR MEGAFONES FOGO E SAL;

ANUNCIE A COLHEITA AOS DESNUTRIDOS
E, PROMETA CHUVAS E RIOS POTÁVEIS
ATRAVÉS DE CÂNTICOS  E VOTOS COMPRÁVEIS
 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O CAMPEÃO


ENTRE A BANCARROTA
E O CRUZADO DA GLÓRIA,
FIGURA O REGIME DO RINGUE

ESQUIVA-SE DA LIGEIRA CANHOTA
E EMENDA UMA SENHORA TORA
DEIXANDO A VIDA GROGUE

VIDA QUE APOSTA NA TUA DERROTA
TE ANUNCIA COMO ESCÓRIA
E PROÍBE QUE TEU CORTE ESTANQUE.

A CADA NOCAUTE, CADA VOLTA,
CADA FRATURA E COÁGULO NA MEMÓRIA,
O CAMPEÃO GANHA ASPECTO DE TANQUE

E LOGO, NENHUM ROUND MAIS O ESGOTA,
NEM DA BOCA CALEJADA VAZA LAMÚRIAS:
A LONA, ANTES LAMA, VIRA PALANQUE.

NOTA QUE, NA AMARGA DERROTA
E NA DOCE VITÓRIA,
PREVALECE O GOSTO DE SANGUE.



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A VELHA E O MAR

RELIGIOSAMENTE POÉTICO


MINHA FOME NÃO É HÓSTIA
NEM SANTA CEIA QUEM APLACA.
MINHA FOME É CARNÍVORA E LAICA,
MINHA SEDE: APLACA O VINHO NA BOCA.

NÃO ACENDO VELAS PARA IMAGENS
NEM DOBRO OS JOELHOS NO LEITO
QUANDO ALGO CARCOME MEU PEITO
OU ALGUÉM SOFRE DE VISAGENS.

NÃO OFERTO ROSAS NEM CARREGO ANDOR,
NEM ME PERSIGNO, TAMPOUCO ME FLAGELO,
POIS DEIXO PROS VERSOS ALEGRIA E DOR.
VERSOS FEITOS À MÃO, SEM MARTELO.

NÃO É MISSAL, NÃO É VERSÍCULO,
MEU POEMA NÃO É HINO NEM CÂNTICO,
NEM É PREGADO EM PRAÇA PÚBLICA,
NEM É BARROCO NEM É ROMÂNTICO.

MEU POEMA É MEU TEMPLO, MEU VERBO,
MEU TESTAMENTO PERSEGUIDO E QUEIMADO;
NÃO É TAUMATURGO, E SIM, MUITO PECADOR,
MAS NELE CREIO POR SER OUTRO CRUCIFICADO.

OFF-SINA



É necessário uma bigorna,
um martelo e a fornalha 
para que o poema, que orna,
também brilhe feito navalha. 

Possa ele ceifar plantações,
exércitos e pomares;
deva ele armar batalhões,
calçar cavalos e extrair molares.

Ardente oficina é o homem 
cujo encéfalico martelo 
junto de bigorna e abdômen 

escrevam o amolado cutelo 
na página de ferro e brasa 
onde a carne, com o corte, se casa.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

MOMO



Obeso
Hipertenso
Diabético
Cardíaco
Patético
no seu trono irreal,
suado e suíno rei
entre súditos de fio-dental,
bobos e uma corte gay,
decreta sem régia carta
que se esqueça tudo
que não seja se esbaldar no abandono
tendo salvo-conduto
até a cinzenta quarta.

Findo seu mandato,
vossa majestade - de quatro -
despede-se do trono
voltando ao peso,
à pressão,
à glicose,
ao coração,
à baixestima
e ao abandono.